8 de janeiro de 2026
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Sob chuva, o Salgueiro acende 2026 como promessa de amor e reverência

Na Conde de Bonfim lotada, a Academia do Samba estreia o ano em clima de devoção à obra de Rosa Magalhães e coloca a comissão de frente como cartão de visita

Debaixo de chuva e vento, o Salgueiro fez a Conde de Bonfim provar por que aquela rua é mais do que roteiro: é coração. No primeiro ensaio de rua de 2026, a Tijuca virou abrigo de canto apaixonado, evolução leve e um pulso musical que sustentou a escola com firmeza. Era estreia, mas tinha cara de ritual. Cada gesto, cada resposta da comunidade, parecia apontar para a mesma direção: a homenagem a Rosa Magalhães não será apenas tema — será estado de espírito.

Com o enredo “A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora Que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e nem do Pirata da Perna-de-Pau”, assinado por Jorge Silveira, o Salgueiro começa a caminhada já carregando um simbolismo histórico: em 2026, será a escola que encerra o Carnaval, posição inédita na era Sapucaí. E a rua, mesmo molhada, respondeu como resposta de fé. A decisão de manter o ensaio, apesar do tempo, veio com planejamento e com a certeza de que a comunidade não faltaria. Ela não faltou.

O grande destaque da noite foi a comissão de frente de Paulo Pinna, com execução clara e estrutura inteligente, desenhada a partir do próprio samba. Sem figurino e sem aparato cênico de desfile, o trabalho se sustenta pela leitura corporal das imagens do enredo, como se a coreografia abrisse, página por página, a biblioteca da “Professora”. Formada por 20 integrantes, a comissão brinca com formações que se reorganizam sem parar, cita referências com consciência e encontra um momento de potência simbólica quando as mãos se erguem no trecho “Mestra, você me fez amar a festa”, gesto que reverencia Rosa e, ao mesmo tempo, aponta para a estrela que o Salgueiro deseja.

No casal, Sidclei Santos e Marcella Alves confirmaram excelência de gente grande. Ele risca o chão com elegância ritual, ela gira com precisão e leveza, e a dança ganha sutilezas afetivas quando o samba pede “caso de amor”. Há saudação, há cena, há inteligência cênica — e há a sensação de nota máxima no ar.

Musicalmente, o ensaio foi forte onde o samba explode em emoção, especialmente no pré-refrão e no refrão, cantados com convicção coletiva. O alerta está no miolo da obra, onde o canto cai e precisa crescer para sustentar uniformidade até o fim. A Furiosa, encaixada e potente, dá a base, e ainda deixa no ar a promessa de novidades quando a avenida chegar.