13 de janeiro de 2026
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Liberdade Em Verde e Branco

Na Ary Franco, a Mocidade estreia 2026 com samba que cresce, comunidade que responde e uma escola que volta a se reconhecer

O primeiro ensaio de rua da Mocidade em 2026 teve cara de reencontro. Na Avenida Ministro Ary Franco, em Bangu, a Estrela Guia apareceu com um jeito de quem voltou a se divertir com o próprio samba, como se a homenagem a Rita Lee abrisse uma porta interna: a da leveza corajosa, da irreverência sem medo, da festa como identidade. O resultado foi uma noite em que a escola sustentou seus melhores momentos com canto seguro, condução firme e um clima libertário que atravessou o cortejo como um recado direto, simples e potente.

O samba carrega uma qualidade rara: homenageia sem se esconder atrás da homenagem. Ele fala de liberdade como forma de vida e, ao mesmo tempo, faz a Mocidade dizer de si mesma — de um processo de reconstrução em que o “ser independente” vira afirmação de personalidade, não apenas referência. O primeiro refrão funciona como declaração: não explode, mas cria base, dá chão para a comunidade cantar com consistência. E há um efeito bonito nas retomadas da obra, quando a escola reencontra o fôlego e parece voltar a acender por dentro, como se cada retorno pedisse mais entrega e recebesse mais resposta.

Nesse mecanismo, a condução do intérprete foi decisiva. Em vez de apenas atravessar o samba, ele marcou os pontos centrais com vigor e inteligência, chamando a comunidade exatamente onde o canto precisava ser sustentado. E quando a obra chega ao refrão principal, tudo muda de temperatura: a Mocidade se solta, o canto cresce, a rua vibra, a noite ganha corpo. Ainda assim, existe um trecho intermediário em que a energia tende a cair e parte da escola deixa de cantar com a mesma força, abrindo uma janela de atenção para que o samba permaneça inteiro do começo ao fim na avenida.

Mesmo com dificuldades técnicas no início, o som foi defendido com categoria. A equipe manteve o rumo, contornou problemas sem deixar o rendimento desabar, e isso também diz muito sobre maturidade: não é só quando tudo está perfeito que uma escola se mostra pronta; é quando ela atravessa o imperfeito sem perder a alma. E a alma esteve ali, sobretudo porque a comunidade respondeu quando precisava, como se o ensaio fosse uma conversa contínua entre voz e bateria.

Na evolução, a Mocidade exibiu seu trunfo mais evidente: alegria. Uma escola que brinca, que interage, que pula, que faz da rua uma extensão do seu quintal. Há espontaneidade em estado puro, um carnaval vivido antes do carnaval. Mas essa mesma liberdade, tão valiosa, pede ajustes finos: em alguns momentos, o cortejo oscila, ora segura demais, ora acelera de maneira acentuada, criando uma progressão irregular. O desafio é transformar essa energia em fluidez, manter a festa sem perder a régua do tempo.

A bateria segue como pilar e assinatura. Precisa, pulsante, comunicativa, ela levantou o público e fechou a noite com uma cena de comunhão que parecia resumir tudo: harmonia, passistas e direção vibrando juntos, como se a escola inteira se encontrasse no mesmo pulso. A ausência de comissão de frente e do casal, por compromissos de testes de luz, não diminuiu o impacto do ensaio; ao contrário, deixou um recado claro de que o chão já está trabalhando a favor. E quando o chão canta, a identidade volta a aparecer.