Magia Que Vem Do Tambor
Na Visconde de Niterói, a Mangueira faz da música o coração do ensaio e transforma rua em rito coletivo
A noite da Verde e Rosa foi guiada por um eixo nítido: a música. E quando a música acerta esse ponto — pulsação, clareza, textura, presença — todo o resto encontra lugar. O ensaio de rua se organiza como se fosse um corpo único, respondendo ao comando do som com uma naturalidade que não se ensina: nasce do entendimento profundo entre bateria, carro de som, cordas, apoio e comunidade. Não é só execução. É atmosfera. É a sensação de que o samba “vai pra frente” porque a escola é empurrada por dentro, por uma energia que contagia e faz o componente cantar com o corpo inteiro.
Na abertura, a comissão de frente desenha movimento sem desperdício: dinâmica, ocupando a pista com inteligência, alternando espelhos e formações para dialogar com os dois lados, criando imagens que não dependem de pausa para existir. Há um instante em que o samba pede cura, e o desenho vira rito: o centro gira, o entorno gira, e o olho entende antes da mente. É beleza com precisão. É o tipo de passagem que anuncia, de cara, que existe trabalho e existe intenção.
O primeiro casal, por sua vez, não entra apenas para cumprir um quesito. Entra como quem é esperado. A reação ao redor não é formal, é afetiva: incentivo, aplauso, grito, encontro. O mestre-sala dança com espontaneidade madura, como se o gesto fosse natural e inevitável; a porta-bandeira imprime velocidade e firmeza, com giros que parecem abrir espaço no ar. A bandeirada final não é um enfeite: é afirmação. A performance ganha peso porque mobiliza a comunidade, e isso é um tipo raro de excelência — aquela que não acontece só no corpo de quem dança, mas no corpo de quem assiste e responde.
Mas o grande assunto da noite está no som. A bateria sustenta uma pegada que convida ao balanço e faz nascer pequenas coreografias espontâneas em trechos específicos, como se o samba tivesse lugares exatos onde o corpo entende que precisa falar. O intérprete conduz com leitura firme, os apoios constroem harmonias e camadas, as cordas oferecem densidade e textura. Em certos pontos, há detalhes sonoros que viram assinatura e criam uma identidade própria para a obra. E quando chega o trecho em que canto e corpo caminham juntos, a escola parece ganhar luz: o refrão cresce, a comunidade vibra, a rua vira palco sem perder sua verdade.
Ainda existe, aqui e ali, um pedido de incorporação maior em alguns trechos — não como falha, mas como caminho. Esse samba não quer apenas voz. Quer presença. Quer que as imagens da letra se projetem no canto com mais força e que a comunidade vista a obra por inteiro. A ala musical, hoje, já entrega o terreno fértil: sustenta, provoca, impulsiona. O desafio é fazer essa magia se espalhar ainda mais, até que tudo, do primeiro ao último setor, soe como uma só nação cantando sem freio.

