13 de janeiro de 2026
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O Boulevard Volta A Respirar Azul e Branco

A Vila Isabel reencontra sua comunidade na 28 de Setembro e começa 2026 com canto forte, segurança e maturidade de quem sabe o que está construindo

A primeira quarta-feira de 2026 no Boulevard 28 de Setembro teve um gosto de retomada com abraço apertado. A Vila Isabel voltou ao seu chão com alegria visível, como quem reencontra a própria casa e lembra, no primeiro passo, por que o samba nasce e cresce na rua. O canto veio como recado principal: alto, presente, pulsando em refrões e atravessando setores com uma energia que não parecia esforço, parecia vontade. Havia ali o desejo antigo de voltar a sonhar grande, aquela fome de conquista que se renova quando a comunidade canta como se o desfile já estivesse acontecendo.

O enredo “Macumbembê, Samborembá – Sonhei que um sambista sonhou a África” apareceu como atmosfera, não como explicação. A proposta de contar a história de Heitor dos Prazeres, multiartista fundamental do samba, combina com essa Vila que se entende preta, musical e orgulhosa de suas raízes. E o ensaio mostrou que a escola está colocando esse entendimento no corpo: não só na letra, mas na presença espiritual, na expressão e no jeito de ocupar o espaço. Tudo ganha mais sentido quando a rua vira templo e o canto vira guia.

Na comissão de frente, comandada por Alex Neoral e Márcio Jahú, o desenho já conhecido foi apresentado com um salto de segurança. Os movimentos bebem nos gestos e danças de religiões de matriz africana, com braços e quadris bem marcados, aproveitando o Boulevard com inteligência. O que chama atenção é a evolução: os bailarinos vieram mais firmes, mais precisos, como quem já incorporou a coreografia e agora dança com peso e intenção, sem sobrar nem faltar.

O casal Raphael e Dandara passou com tranquilidade clássica, sustentando uma dança segura, de cortejo tradicional e cumplicidade evidente. Os giros de Dandara e os passos de Raphael vieram com ainda mais confiança, e há um momento em que a apresentação ganha outro brilho: na parte final, ligada ao refrão principal, entram gestos que evocam Oxum e Xangô, respectivamente, marcando espiritualidade e ancestralidade sem quebrar a elegância do conjunto. É uma assinatura que conversa diretamente com o enredo e faz a dança virar mensagem.

No carro de som, Tinga comandou a noite com domínio e vigor. O povo de Noel respondeu forte, com destaque para os refrões e para a segunda parte do samba, naquela subida em que a obra parece abrir o peito e pedir ainda mais corpo — “De todos os tons, a Vila negra é”. Ali, a escola cresce. E cresce de um jeito que revela maturidade: não é apenas volume, é firmeza de letra, segurança de andamento, entendimento coletivo do que se canta. A sensação é de que a obra está na boca da comunidade e, quando isso acontece, metade do caminho já está acesa.

A evolução fluiu leve pela 28, com componentes animados e soltos, sem correria desordenada e sem paradas longas. Algumas alas executaram coreografias do refrão do meio com boa integração, mantendo um ritmo que já lembra desfile, e depois seguiram com tranquilidade. E por trás dessa fluidez, apareceu um discurso que explica o tom do ensaio: a escola está em modo de lapidação contínua, pontuando o que funciona e o que precisa melhorar, discutindo internamente, marcando reuniões, buscando ajuste fino para que cada quarta-feira seja melhor do que a anterior.

A “Swingueira de Noel” foi um capítulo à parte. Sob o comando de mestre Macaco Branco, a bateria dialogou com a ala musical com precisão, executando bossas com domínio e mostrando o quanto esse samba permite uma bateria feliz, criativa e segura. E, à frente, Sabrina Sato trouxe alegria e contágio, ajudando a transformar o treino em celebração sem tirar o foco do trabalho. Quando o ensaio termina com essa sensação de canto inteiro e chão bem resolvido, a rua entende antes da Sapucaí: a Vila voltou para si.