6 de fevereiro de 2026
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Carolina Entra, A Tijuca Se Reconhece

No primeiro ensaio técnico, a escola transforma narrativa em discurso e faz a Sapucaí cantar com propriedade

A Unidos da Tijuca pisou a Sapucaí com uma ideia muito clara: não basta desfilar um enredo, é preciso afirmar uma história. E Carolina Maria de Jesus apareceu como centro vivo dessa afirmação, conduzindo o ensaio como personagem, símbolo e voz. A escola encontrou uma linha única atravessando tudo — comissão de frente, pavilhão e canto — como se cada quesito repetisse, à sua maneira, o mesmo recado: a Tijuca quer reescrever seu caminho com consciência e coragem.

A comissão de frente veio de leitura direta e poderosa, sem truques grandiosos, sustentada por dramaturgia. A cena apresenta Carolina como eixo, com a pivô surgindo no instante exato em que o samba assume a ideia de liberdade e, logo depois, convocando a escola para “mudar essa história”. O desenho coreográfico alterna peso e levante: primeiro, a imagem da opressão; depois, a transformação do grito em libertação. Quando as mulheres tomam o protagonismo e a cena se abre para o símbolo da luta que continua, o ensaio deixa de ser apenas apresentação e vira manifesto. E, no gesto que carrega ainda mais densidade, o livro aparece como objeto de cena, como prova material de uma trajetória que não se apaga.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira entrou no campo da superação com a cabeça erguida. Matheus Miranda e Lucinha Nobre dançaram com imponência e elegância, e o figurino dourado funcionou como discurso visual: postura altiva, brilho consciente, afirmação de presença. Lucinha teve momentos que atravessam a técnica e encostam na emoção pura, tratando o pavilhão como quem acolhe uma história inteira. E quando a coreografia sublinha a centralidade da mulher negra na narrativa, o bailado ganha mais do que beleza — ganha sentido.

No canto, a Tijuca mostrou que comprou o samba de verdade. A introdução já chama a Sapucaí para dentro do universo do desfile e, quando a obra chega ao trecho em que a liberdade se apresenta e a escola é convocada a mudar, a resposta da comunidade vem como explosão imediata. Há intenção no canto, não apenas volume: versos mais densos aparecem firmes, sustentados, cantados como quem sabe o que está dizendo. O carro de som, sem exagero, conduz com sobriedade e continuidade, deixando o componente como protagonista. No fim, a intensidade oscila em alguns setores, mas a sensação dominante permanece: a Tijuca canta com propriedade porque entende a história que está contando.

A bateria sustenta com regularidade e cadência, atravessando ajustes técnicos sem perder o chão. E a evolução, rápida e fluida, reforça o que a escola parece buscar: leveza no deslocamento, liberdade no corpo e uma alegria que não solta a mão da narrativa. Para um primeiro teste na Sapucaí, a Tijuca não veio apenas “mostrar serviço”. Veio colocar Carolina no centro e, junto com ela, colocar o Borel de pé.