13 de janeiro de 2026
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Quando Um Poeta Se Cala, O Samba Escuta

A despedida de Myngau deixa um silêncio raro nas disputas e uma marca profunda na história recente da Grande Rio

O samba amanheceu mais pesado neste sábado, 10 de janeiro de 2026. Partiu Myngau, nome que atravessou as últimas décadas das disputas de samba-enredo com uma assinatura reconhecível: escrita sensível, popular, feita para ser cantada por muita gente ao mesmo tempo. A causa da morte não foi divulgada, e esse detalhe, por enquanto em aberto, só amplia a sensação de choque que costuma acompanhar perdas assim: quando o compositor é daqueles que a gente acostuma a ver sempre por perto, como se fizesse parte do calendário do carnaval.

Na Grande Rio, a ligação é daquelas que viram capítulo de história. Foram nove sambas assinados na escola, espalhados por 2000, 2003, 2004, 2005, 2008, 2009, 2010, 2013 e 2023. Nove vezes em que a voz do povo de Caxias se encontrou com a caneta de um poeta e transformou disputa em destino. Há compositores que vencem; e há compositores que, ao vencer, ajudam a moldar o jeito de uma escola cantar. Myngau pertence a essa segunda categoria, a dos que deixam algo além do troféu: deixam memória musical.

A trajetória, no entanto, não ficou restrita à tricolor. Myngau também colecionou conquistas em outras praças: foi um dos autores do samba da União da Ilha em 2019, venceu as disputas da Unidos de Padre Miguel em 2022 e 2023 e, em São Paulo, integrou a parceria vencedora da Mancha Verde no último carnaval. Esse percurso desenha um tipo de respeito que se confirma em qualquer quadra: o de quem chega e é ouvido, o de quem participa e muda o ambiente, o de quem escreve e faz o coletivo cantar.

A Grande Rio se despediu com carinho e gratidão, chamando Myngau de um de seus maiores poetas e lembrando que seus versos ajudaram a escrever a história da escola. E é isso que fica quando um compositor se vai: não apenas a falta. Fica o rastro do que ele colocou no mundo, o eco de uma assinatura que continua vivendo sempre que alguém, em algum canto, puxa um refrão como quem chama de volta aquilo que nunca deveria acabar.