17 de janeiro de 2026
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Salgueiro Na Ponta Dos Pés E No Peito Do Povo

Casal em noite de gala, harmonia em uníssono e uma reta final que explode como aviso de Sapucaí

O Salgueiro chegou à rua com aquela sensação rara de escola encorpada, madura e consciente do próprio tamanho. A cada semana, a Vermelho e Branco parece retirar um peso do caminho e colocar outro no lugar: o peso da confiança. Não é empolgação vazia, é rendimento. O ensaio mostrou um conjunto que já sabe onde mora sua força: um casal que inspira nota alta antes mesmo de terminar a primeira passada, uma comunidade que canta com prazer, e um samba que encontra um encaixe musical tão confortável que parece ter sido feito sob medida para o jeito salgueirense de desfilar.

Sidclei e Marcella foram o retrato mais elegante dessa noite. A comunicação no olhar, a naturalidade do bailado, a execução limpa e segura criaram uma apresentação com brilho de gala, daquelas que silenciam qualquer dúvida e transformam o pavilhão em centro magnético. Marcella desenhou giros em progressão com postura ereta e controle absoluto, enquanto Sidclei conduziu com precisão cirúrgica, sem excessos, com técnica e agilidade. No refrão principal, os giros em conjunto apareceram como assinatura, reforçando a sensação de excelência contínua.

Na pista, a evolução foi um convite à liberdade com responsabilidade. O Salgueiro brincou com o espaço, explorou lateralidade, trocou posições, ocupou a rua com corpo inteiro e sem rigidez, deixando a escola pulsante e contagiante. Houve um momento de atenção, quando as primeiras alas aceleraram além do ritmo geral, mas o conjunto rapidamente reencontrou o andamento e seguiu com estabilidade. E então veio o impacto maior: a reta final do ensaio, avassaladora, com as alas derradeiras preenchendo a pista com uma força que dá arrepio, como se a escola guardasse uma explosão para o último trecho só para lembrar que sabe terminar grande.

A harmonia foi o coração batendo alto. Quase não se encontrava um componente calado: o canto veio em uníssono, com potência, como uma orquestra que respira junto. Os refrões cresceram de forma natural, mas houve um ponto em que a rua mudou de temperatura: o pré-refrão virou grito coletivo, entoado com força total em todas as passadas, sobretudo quando a bateria parava e o canto ganhava um destaque ainda mais impactante. O carro de som conduziu com musicalidade e prazer, e o samba, poético e funcional, pareceu cair de vez na graça do chão, crescendo a cada ensaio em explosão e entendimento.

A bateria vive fase de segurança e refinamento. Convenções, bossas e arranjos aparecem cada vez mais cravados, e a sensação é de precisão em construção, daquela que vai se consolidando no tempo certo. Há um discurso interno de trabalho pesado e lapidação diária, com reuniões, ajustes e segmentos ensaiando em separado para chegar no desfile com tudo no ponto. No meio desse time forte, até os detalhes ganharam luz: a simpatia de uma musa que roubou a cena, a passagem firme dos passistas cantando e sambando, e a certeza de que o Salgueiro entra na reta final de 2026 com cara de escola que sabe onde quer chegar.