6 de fevereiro de 2026
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O Torrão Amado Em Estado de Arte

Com comissão nostálgica, casal irrepreensível e um canto que atravessa arquibancadas, o Salgueiro emociona e mostra força real

Há noites em que o ensaio técnico deixa de ser preparação e vira manifesto. O Salgueiro viveu uma dessas noites: entrou na Sapucaí com densidade artística, com um tipo de emoção que não se inventa e com uma comunidade que parece ter assumido a missão de cantar por Rosa Magalhães como quem canta por si mesma. O enredo, por si só, já carrega um peso de reverência — uma jornada delirante e carinhosa pela obra da professora — mas o que transforma tudo em verdade é a maneira como a escola coloca isso em prática: no corpo, na voz, na escolha estética, no jeito de ocupar a avenida.

A comissão de frente optou por um caminho raro: a nostalgia como força criativa. A coreografia revisitou uma lembrança clássica do carnaval, trazendo bruxas e feitiço para o centro da pista em uma homenagem que se faz pelo gesto e pela memória. O figurino, pensado a partir de uma referência conhecida, brinca com a ideia de transformação: o que antes tingia o mundo, agora tinge a si mesmo. Sem elementos cênicos, tudo ficou entregue à dança — e isso exige um rigor que poucas comissões conseguem sustentar. O Salgueiro sustentou. Com sincronia alta, ocupação de espaço inteligente e uma caracterização facial que fechou o quadro com capricho, a apresentação apareceu limpa, segura e carregada de significado.

No casal, o Salgueiro mostrou por que tem um dos maiores patrimônios da avenida. Sidclei Santos e Marcella Alves não apenas apresentaram o pavilhão: conduziram o público a acreditar no quesito. Há técnica, há leitura precisa, há elegância, mas o que impressiona é a conexão — a sensação de que um sabe o pensamento do outro antes do movimento acontecer. Sidclei dança como galanteador, leve e firme, e Marcella sustenta o pavilhão com uma segurança que transforma o risco em serenidade. A bandeira permanece aberta, respeitada, valorizada o tempo inteiro, e o conjunto entrega um bailado que parece nascer de um pacto silencioso de excelência.

A harmonia foi o coração da noite. O samba encontrou comunhão imediata com uma comunidade comprometida e aguerrida, cantando com intensidade e emoção, como se cada passada reafirmasse a importância daquele tributo. O canto veio forte também nas arquibancadas, criando aquela sensação de que a Sapucaí inteira entra no samba e devolve energia para a escola. A condução de Igor Sorriso teve segurança e prazer, e o trabalho musical mostrou organização e cuidado, com o samba respirando bem e ganhando ainda mais força quando a multidão decide assumir a obra como hino, não como novidade.

A evolução, por outro lado, pediu freio e régua. O andamento oscilou, alternando lentidão e aceleração, e em alguns momentos alas precisaram abrir espaço para evitar vazios na pista, especialmente depois que a bateria entrou no segundo recuo. É um alerta importante, mas também um aviso de possibilidade: corrigir isso é transformar potência em fluidez, emoção em controle, e fazer a escola crescer ainda mais no ensaio seguinte. O que não faltou foi vibração — e, quando a vibração está toda de pé, o ajuste de tempo se torna uma questão de refinamento, não de essência.

Nos detalhes que fazem uma noite virar lembrança, a avenida se emocionou. Viviane Araújo brilhou com leveza e simbologia, vestida de cisne em referência direta a uma memória marcante de Rosa. E o paradão da bateria ganhou clima de cerimônia: o som do violino atravessou o silêncio, bexigas coloridas subiram ao céu e uma luz rosa pintou a Sapucaí com um sentimento que não precisa ser explicado — parecia saudação, parecia agradecimento, parecia amor em forma de carnaval.