Salgueiro traz Xica da Silva de volta à avenida após seis décadas
Xica da Silva retorna à Marquês de Sapucaí depois de 64 anos longe dos holofotes do carnaval carioca. O Acadêmicos do Salgueiro desfilará em 2027 com o enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”, assinado pelo carnavalesco Jorge Silveira e pelo enredista Leonardo Antan, trazendo uma releitura profunda sobre a vida da mulher que marcou época na mineração do século dezoito.
A proposta nasce de uma pesquisa acadêmica e de um documento inédito que virou público recentemente: o testamento de Francisca da Silva, divulgado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais em 2025. Este material rompe com interpretações equivocadas que cercaram a personagem por séculos, revelando nuances da sua trajetória que o imaginário popular nunca conheceu de verdade.
No desfile, a vermelha e branca da Tijuca apresentará Xica através do arquétipo das pombas-gira, entidades das encruzilhadas ligadas à força feminina e à quebra de padrões sociais. É um paralelo poético entre a vida da alforriada e essa potência simbólica que pulsa no universo afro-brasileiro, conectando passado e presente numa mesma energia irreverente.
Francisca da Silva de Oliveira nasceu em 1732, filha da miscigenação entre Maria da Costa, vinda da Costa da Mina (território entre atual Nigéria e Benin), e Antônio Caetano de Sá, colonizador português. Escravizada e depois alforriada, conheceu o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com quem viveu durante quinze anos num relacionamento consensual que desafiou todas as convenções da época. Desse relacionamento nasceram quatorze filhos.
A primeira grande homenagem ao carnaval aconteceu exatamente em 1963, quando os desfiles saíram da Avenida Presidente Vargas pela primeira vez. O Salgueiro apresentou Xica da Silva com enredo de Arlindo Rodrigues e conquistou a segunda estrela da escola, perpetuando o nome na memória coletiva. Tempos depois o cinema abraçou a história: Zezé Mota a interpretou em 1976 no filme que concorreu ao Oscar, e Taís de Araújo levou Xica para a novela de 1996.
Na madrugada de Segunda-Feira, 8 de fevereiro de 2027, o Salgueiro subirá a avenida como terceira escola a desfilar. A vermelha e branca que ainda carrega cicatrizes e glórias da sua história recente promete acertar contas com a narrativa que foi contada durante quase quatro séculos. Xica não é apenas personagem histórica que retorna. É mulher que finalmente fala por si mesma.

