11 de fevereiro de 2026
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Quando o Batuque Virou Palavra e Corpo

Na Passarela, a Portela transformou sua comissão de frente em elo entre história, espiritualidade e força negra

Na noite em que a Portela olhou para a Sapucaí como se a avenida fosse um terreiro coletivo, a sua comissão de frente não veio apenas para desfilar. Veio para falar, bater e existir como manifesto vivo de ancestralidade. Tudo nasce do enredo escolhido para 2026 — uma narrativa que se volta para figuras e tradições negras do Sul do país e, ao mesmo tempo, tenta ressignificar o significado do Batuque como expressão cultural que ultrapassa fronteiras regionais.

Edifranc e Cláudia Motta, coreógrafos à frente da apresentação, não apenas coreografaram passos: eles construíram uma ponte entre passado e presente. A comissão de frente encarnou o batuque como símbolo de resistência, religiosidade e história. Quando a pele tocava o chão, a performance reverberava o eco de culturas de matriz africana e o reconhecimento de que a negritude brasileira é múltipla e profunda.

Não se tratou de apenas ocupar espaço. A apresentação carregou em seus gestos a ideia de que o samba pode ser mais do que música: pode ser corpo e memória. Era visível no modo como os movimentos combinavam força e ritualidade, com cada passo remetendo a ritmos e tradições que ganharam vida própria fora do eixo cultural mais centralizado. O batuque deixou de ser regional e virou batida universal de ancestralidade na avenida.

E ao mesmo tempo em que o corpo dançava, a Portela lembrava que fazer carnaval é também prestar homenagem: aos ancestrais, às religiões, às histórias que muitas vezes ficaram à margem da narrativa oficial. O público, diante dessa comissão, não viu apenas sequência de passos sincronizados. Viu gesto político, viu oração em movimento, viu ancestralidade colocada no centro da Sapucaí.